A personagem de hoje decidiu romper o silêncio e protestar contra os maus tratos e as injustiças que ela e outros negros escravizados sofriam. Seu nome: Esperança Garcia.
Bem-vinda! Bem-vindo ao Podcast Heroínas do Brasil! Eu sou Lúcia Tulchinski, e em parceria com a Tumpats, conto a história de brasileiras incríveis, algumas praticamente desconhecidas.
Como a personagem de hoje, que decidiu romper o silêncio e protestar contra os maus tratos e as injustiças que ela e outros negros escravizados sofriam. Seu nome: Esperança Garcia.
A menina Esperança Garcia aprendeu a ler e escrever com os padres jesuítas na Fazenda Algodões, na Província de São José do Piauí. Algo raro porque os negros escravizados não podiam ser educados. Quem os ensinasse, inclusive, corria o risco de ser preso ou processado.
Esperança casou-se aos 16 anos com Ignácio, um negro escravizado como ela, e teve seu primeiro filho. A vida era difícil mas eles estavam juntos.
Então, com a expulsão dos jesuítas da colônia pelo Marquês de Pombal, aos 19 anos de idade Esperança foi separada do marido e dos filhos e levada à força pra outra fazenda. Essa era uma prática comum no sistema escravocrata no século 18. Terrível, né?
Cansada das surras e humilhações impostas pelo feitor da propriedade a ela e a outros escravos, em 6 de setembro de 1770 Esperança escreveu uma carta pro governador da província do Piauí, Gonçalo Botelho Lourenço de Castro.
Ela denunciou os maus tratos sofridos e pediu pra voltar pra Fazenda Algodões pra se reunir à família e batizar sua filha.
Sem obter nenhuma resposta das autoridades, Esperança decidiu fugir.
E conseguiu. Isso é comprovado historicamente por meio de uma lista de trabalhadores da Fazenda Algodões, na qual o nome dela aparece ao lado do marido Ignácio, com sete crianças.
De acordo com juristas e historiadores, a carta de Esperança é considerada uma verdadeira petição porque reúne elementos jurídicos importantes, como endereçamento, identificação, narrativa dos fatos, fundamento no Direito e um pedido.
Por isso, alguns historiadores referem-se à Esperança Garcia como precursora da advocacia no Piauí e, até mesmo, a primeira advogada do Estado.
Viva Esperança Garcia! Viva a igualdade de gênero e de raça!
Saiba mais:
- No Piauí, a Lei 5.046, artigo 5º, de 7 de janeiro de 1999 instituiu o dia 6 de setembro, data em que a carta de Esperança foi escrita, como o Dia Estadual da Consciência Negra.
- O Instituto Esperança Garcia é um projeto de educação dos sonhos possíveis, inspirado pela memória de Esperança Garcia e orientado pela pedagogia do esperançar. Desde 2016 protagoniza iniciativas de educação em Direitos Humanos comprometidas com a transformação do mundo.
Atendendo ao pedido da Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra, Esperança Garcia foi reconhecida por unanimidade como primeira advogada piauiense pelo Conselho Seccional da OAB/PI, em 2017. O reconhecimento foi fundamentado em dois anos (2016- 2018) de pesquisas da Comissão. Um trabalho coletivo realizado por juristas e historiadores(as) que resultou na publicação do “Dossiê Esperança Garcia: Símbolo de Resistência na Luta pelo Direito”.
Para ler:
- Para que as novas gerações saibam da importância da carta de Esperança, em 2012 a escritora Sonia Rosa publicou o livro infantil: Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta. Disponível na Amazon.
- “Dossiê Esperança Garcia: Símbolo de Resistência na Luta pelo Direito”.
Ficha técnica:
- Roteiro e apresentação: Lúcia Tulchinski
- Identidade visual: Cris Pagnoncelli
- Identidade sonora: Lucas Panisson
- Edição e sound design: Gustavo Slomp
- Gerenciamento do projeto e comunicação: Kelly Gequelim
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